Quinta-feira, 11 de Junho de 2009

Viagem a Lugar Nenhum

 

Desde então, em desvairada busca, procuramos o Caminho. É que nascemos para voltar, e nada mais. Somos trôpegos andarilhos na noite da vida que, debalde e cegos, lutam em guerra noturna em busca da Senda Perdida.

Mas, na aurora do nosso entendimento, há o registro secreto dos rumos esquecidos de tão sonhada volta. A rota para lugar nenhum, para aquilo que existe e não existe, para o Reino da Eterna Aurora que está impressa em regiões sombrias na personalidade de cada um. A grande ironia é que, sendo cegos, estamos e não estamos nesse refúgio dos Peregrinos.

Eu vos convido para uma viagem estranha pelos espaços interiores do Grande Além de Dentro, até os confins do Infinito. Eu convido todo aquele que saiba palmilhar seu próprio caminho e tenha olhos de ver, ouvidos de ouvir, para esta insólita aventura.

Vinde, alcemos vôo para o Grande Além de Dentro, rumo a lugar nenhum. Escalemos a Montanha Sagrada. Deixai vossas espadas e vossos alforjes, porque a busca de si mesmo não inclui o transitório, as incertezas desta vida. Lembrai-vos tão somente de que somos seres alados, eternos, que sempre vieram, sempre foram e sempre vão ao Grande Além de Dentro. Alcemos vôo para as longínquas regiões da Alma.

Eis cada uma agora em seu mundo particular. Estais imersos em intensa solidão, a solidão dos Buscadores, dos Peregrinos. A busca de si mesmo é única, singular e solitária.

Estamos voando por espaços infinitos. Agora vamos pousar em uma terra estranha. Vemos imensa região circular com enorme montanha no centro. Ela é vivente e escarpada, mas ganha as alturas do infinito.

É rodeada de escarpas desertas, de solo ressequido e vegetação agreste e seca. Insetos vorazes destroem plantas daninhas, flores debatem-se na ventania, pássaros perdidos cruzam, desesperados, os espaços poluídos.

Estas arrepiantes plagas são povoadas por chacais bravios, que campeiam, esfomeadas e velozes, presas esguias. Estamos em pleno deserto. É o deserto transitório do dia-a-dia, o fantástico mundo das ilusões sensoriais. Temos de atravessá-lo e alcançar o cimo da montanha, porque essa é a Montanha Sagrada da ascensão individual aos Planos mais sublimes.

Ah! Eis o nosso primeiro Guia. Vede que sagrada figura! É a voz que clama no deserto de nossa vida, a indicar-nos ternamente o Caminho. Veste-se de negro profundo, com a branca estola de linho ornada de símbolos sagrados.

Escutai-o! Ele é o arauto da Terra Santa. Escutai-o porque ele é vossa própria Voz Interior clamando em vosso próprio deserto! Na verdade, sois como ele e ele como vós.

Ouvi, ó Peregrinos, os silentes apelos da Alma e caminhemos por entre as pedras e os espinhos destas plagas ressequidas, pois vossa Alma sonhadora acalenta doce esperança.

Já é noite… Atrás ficou o imenso deserto. Subimos muito. Ganhamos um terço da Montanha Sagrada. Mas, olhai para cima. Vede como a Montanha Sagrada da Ascensão individual ganha as alturas do Infinito!

Que estranha metamorfose em nossa túnica! Tornaram-se vestes resplandecentes de luz. É que agora alcançamos a região sombria de perigosos abismos e tempestades bravias. “Vigiai e orai para não cairdes em tentação”, disse o Grande Mestre.

Vede que florestas gigantescas, que imensuráveis rios! Animais belos e horrendos povoam estas regiões primitivas dos espaços interiores. Quão intensas e fantásticas são estas flores! Esta é a região onírica dominada pelos opostos.

Ouvi como cantam anjos nas Alturas e murmuram demônios nos abismos… Não temais, que somos venturosos andarilhos rumo ao Infinito, senhores da Palavra Perdida.

E, além de tudo, “O Senhor é nosso pastor. Nada nos faltará. Ele nos conduz aos campos verdejantes, às águas tranqüilas. Ainda que andemos pelo Vale das Sombras da Morte, não temeremos mal algum, pois seu cajado e suas Hostes nos protegerão”.

Prossigamos, que vossa Alma sonhadora está repleta de esperanças. Vamos, já há prenúncios de Aurora. A Noite Negra da Alma já cede lugar ao tênue amanhecer. Aqui, a última parada antes do final do caminho. Este é o último Portal para lugar nenhum, para a doce Paz do Deus Superior, a Terra Prometida. Despojai-vos aqui das últimas lembranças dos sofrimentos vividos. Despojai-vos aqui das ilusões do transitório, das incertezas do dia-a-dia, das angústias do que já se foi, das ansiedades do que ainda não é, pois neste momento solene atravessamos as fronteiras do Tempo e os limites do Espaço, ganhando a consciência do Eterno Presente e a percepção do Infinito.

Um ar de infinito e sagrado Mistério envolve todo o nosso ser. Olhai vossas vestes! Elas são de cores ainda mais luminosas, de matizes desconhecidos que os olhos humanos jamais poderão contemplar. No vosso peito resplandece ofuscante Rosa Vermelha lindamente desabrochada.

Prossigamos, que o Reencontro está próximo. Ouvi sublimes melodias, cheias de Amor Profundo, que as Hostes Celestiais entoam à distância… Elas falam das Grandes Bodas, do misterioso Casamento Alquímico. É o Cântico dos Alados que retornam à Terra Perdida do Grande Além de dentro. É o Cântico dos eternos Noivos da Alma Universal.

Estamos agora no cimo da Montanha. Que esplendorosa ao mar! Pode-se ouvir o Amor solto no vento, murmurando de flor em flor nestes intermináveis Jardins do Infinito. É um sonho de meridiana luz!

Olhai, ó incansáveis Peregrinos, a recompensa dos Buscadores. Eis a Morada da Luz, eis a imensa Catedral da Alma, o Palácio de Cristal, a Sétima Morada. Eis o Sanctum Sanctorum de cada um.

Este é Sanctum Sanctorum, o Santuário dos Santuários, ó venturosos Peregrinos. É a vossa verdadeira Morada, a Morada Secreta do Mestre Interior.

As portas agora se abrem com vossa chegada, pois o Mestre já aguarda há milênios, com hora marcada. Entrai, subi a Escada Mística dos Sete Degraus. As imensas portas de ouro se abrem de par em par e a sublime Luz do Mestre inunda a imensa nave do Templo Sagrado

Vede! São os Noivos da Grande Alma Universal e eles encontraram, enfim, a sua Amada. Entrai. Ide vivenciar vosso próprio Casamento Alquímico… Ficai agora com vós mesmos e ouvi o retumbar imenso na profundeza de vossa Alma – o Cântico da Redenção.

Agora que vossa Alma encontrou a Paz Profunda, que levará por toda a vida, despedi-vos do vosso Mestre. Deixai o Templo Sagrado, onde podereis voltar a qualquer dia pelo caminho solitário de cada um. Voltemos todos ao lugar de onde viemos, mas agora com as dores apagadas, o coração repleto de Amor, a Alma plena de Paz Profunda. Voltemos com todo o nosso Ser na mais perfeita harmonia.

publicado por silvia às 17:16
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